Xokleng

Xokleng

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Não faz muito que o povo indígena Xokleng é considerada uma grande nação da Antiguidade. Através de escavações realizadas em junho de 2004, na cidade catarinense de Abdon Batista, por arqueólogos da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), foram descobertos vasos de cerâmica de 2860 a.C., sendo esta a segunda descoberta mais antiga do Brasil ‒ a mais antiga é de 4000 a.C., de um povo indígena da Amazônia.
Desde vasilhas para uso doméstico a instrumentos para a prática da agricultura foram encontrados em 260 sítios arqueológicos. Muitos dos objetos estavam a 30 ou 40 centímetros acima, mostrando locais específicos destinados a rituais ou armazenagem de alimentos. Essas descobertas apresentam os xoklengs como um povo bem mais avançado do que apenas caçadores e coletores de pinhão do ano 200, como antes se pensava. A utilização de cerâmica representa uma evolução, como diz o antropólogo Marco Aurélio de Masi, da Unisul (MAIOR, 2004). “Agora, sabe-se que os xoklengs viveram na região por vários milênios, sendo dizimados no século 19 pela colonização do sul do país. Hoje, os representantes da tribo não passam de mil pessoas”. Atualmente, os xoklengs somam 1,853 pessoas, localizadas em Santa Catarina.

Xamanismo

O xamanismo pelos xoklengs é dado a um membro próximo da família. As técnicas terapêuticas consistem, principalmente, no contraste de quente e frio, extração de elementos maus como espíritos e demônios e imposição das mãos. A ideia principal da doenças pelos xoklengs, é da dominação do corpo e da alma por agentes sobrenaturais. Doenças e morte são normalmente caracterizadas por causas como relações sexuais proibidas ou dominação do corpo. Métodos xoklengs de exorcismo e práticas contra seres sobrenaturais, hoje em dia são utilizadas normalmente por igrejas evangélicas.
Nos anos 30, a cultura material dos xoklengs era muito rica e variada, na qual mulheres e homens produziam panelas, redes para pesca, barcos, cordas, instrumentos, cintas, cestos, etc. Mas, com a quase extinção deste povo, a pequena produção de utensílios é para o uso imediato, ou para a venda como arcos e flechas produzidos para serem vendidos nas cidades e para consumo próprio, colares para o dia do Índio, que após utilizado é descartado.

Onde viviam e onde habituam atualmente

Os ancestrais do povo Xokleng habitavam e dominavam toda a área de floresta, que localiza-se, desde o Sul do Brasil até Paranaguá (PR). "Não se pode pensar assim que as tribos tinham um território definido, nem muito menos que elas formassem um único grupo local".

Problemas enfrentados pela tribo

O maior problema enfrentado pela tribo foi por volta de 1800 em que aconteceu um extermínio no processo de ocupação do vale do rio Itajaí pelos europeus. “Vários subgrupos xoklengs foram exterminados no processo de ocupação europeia do vale do rio Itajaí, mas os xoklengs lutaram pela sua sobrevivência. Segundo a Fundação Nacional de Saúde, em 2010 existiam cerca de 1853 índios desse grupo”.Também, como o povo Xokleng habitava próximo ao mar, houveram vários problemas de alagamentos na área onde viviam.

Os xoklengs como grupo tribal

Segundo o site da prefeitura de Jaraguá do Sul, os índios Xokleng receberam vários nomes: Bugre, Botocudo, Aweikoma, Xokrén e Kaingang. Estes apelidos que são dados por um não-indígena, muitas vezes são pejorativos.

“Bugre: é um termo para designar qualquer índio no sentido de selvagem e inimigo.
Botocudo: devido ao enfeite labial uma espécie de botoque (tembetá) usado pelos adultos (homens).
Aweikoma: é uma deturpação da frase destinada a convidar uma mulher para cópula (relação sexual).
Xokrén: significa taipa de pedra, da mesma maneira que Xokleng.
Kaingang: designa homem, qualquer homem”.

Sobre a imagem

Desde o início do século XVIII, já se analisava a alternativa de conectar Rio Grande do Sul e São Paulo, devido às múltiplas possibilidades que surgiriam para o comércio, a pecuária e a agricultura. Este território, porém, estava ocupado pelos índios Kaingang e Xokleng. Em 1728 foi feita a estrada de tropa entre as duas províncias (sendo basicamente o mesmo trecho da atual BR-116).
No ano de 1777, com o surgimento da cidade de Lages, incia-se um conflito entre os indígenas e os brancos. Estes realizavam a exploração de madeira e erva-mate, e a redução desses elementos ‒ fontes de alimento para os povos Xokleng e Kaingang ‒ começou a ser percebida, e iniciam-se confrontos tanto entre os indígenas e não indígenas quanto dentro dos próprios povos, que lutavam pelos terrenos que sobravam.
No século XIX, com a chegada dos europeus no Rio Grande do Sul, há um deslocamento dos xoklengs da região gaúcha para a catarinense, na direção oeste e para o vale do Itajaí, ampliando o conflito territorial entre os Xokleng e os Kaingang. Em meados do século XIX, os xoklengs se dividiam em dois grupos, os Waikòmang e os Kañre. Os Waikòmang assassinaram os homens Kañre e tornaram as mulheres e crianças Waikòmang. Então, os Waikòmang acabaram se dividindo em três facções: Ngrokòthi-tõ-prèy, próximo a Porto União (SC); Laklanõ, perto do município de Ibirama; e Angying, próxima à serra do Tabuleiro.
Essas terras ocupadas pelos xoklengs foi mais tarde invadida pelos imigrantes, gerando mais atrito entre os povos. Os indígenas atacavam a colônia diversas vezes, ameaçando o processo de colonização. O poder político e religioso da capital dividia-se entre quem apoiava o fim dos xoklengs e quem buscava protegê-los. Havia dois blocos: os frades capuchinhos, que queriam catequizar os indígenas; e os bugreiros, também conhecidos por “caçadores de índios”, tropas armadas feitas pelo governo provincial em 1879, com o objetivo inicial de distanciar os “selvagens desalmados” da população, mas que depois receberam ordem para exterminá-los.
Os bugreiros costumavam atacar durante a noite, assassinando os adultos e livrando crianças e algumas mulheres. Elas eram levadas para a região de Florianópolis, para serem batizadas e adotadas por burgueses. O religioso Monsenhor Topp, por exemplo, adotou um garoto, e dizia que era necessário salvar as crianças para que depois elas pudessem atrair seus parentes. No início do século XX, propagou-se a ideia de parar com a matança, porém não em todos os municípios, onde ainda existiam os bugreiros.
No ano de 1907 é criada a Liga Patriótica para a Catequese dos Silvícolas e, em 1910, o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), que daria estrutura aos postos para atrair os xoklengs. O primeiro contato um pouco mais amistoso com os Waikòmang e o SPI só foi ocorrer em 1910, em um posto de atração em Porto União. A “pacificação” durou pouco, pois um dia surgiram dois fazendeiros que participaram de chacinas anteriormente, e foram reconhecidos pelos xoklengs. Os indígenas mataram os fazendeiros e os funcionários do SPI, e em seguida se direcionaram para a mata. Cerca de 50 indígenas foram reencontrados por outro funcionário do SPI, João Serrano, em 1918, e acabaram morrendo por doenças respiratórias advindas do contato.
Em 1914 a facção Laklanõ é encontrada pelo SPI no alto vale do Itajaí, num dos postos de atração. Segundo relatórios do funcionário que os contatou, Eduardo de Lima e Silva Hoerhann, durante os primeiros anos, os xoklengs continuaram indo à floresta e guerreando com colonos, aparecendo no posto apenas para buscar alimentos, roupas ou quando adoeciam. O fato de eles ainda estarem na mata fez com que os bugreiros continuassem com seu trabalho até 1940.
Segundo Wiik (2015), “Após os primeiros contatos, mortes em massa, provocadas por epidemias, levaram os xoklengs a abandonar este posto do SPI para escapar às doenças dos brancos; nesta época deixaram de executar dois rituais importantes: a perfuração dos lábios inferiores dos rapazes para a introdução do botoque (ritual de iniciação mais importante para os homens, chave para sua socialização e construção de identidade); e o ritual de cremação dos mortos”.
Em 1925, os bugreiros exterminam a facção Angying. Três sobreviventes foram encontrados em 1949 por caçadores, próximo a São Joaquim. Dois deles faleceram após uma gripe, e o outro foi levado para os xoklengs de Calmon. Os xoklengs da Serra do Tabuleiro nunca foram visto apesar de comentados, estando “mortos ou integrados à sociedade nacional sem qualquer registro etnográfico” (WIIK, 2015).
Os últimos xoklengs da Terra Indígena (TI) Rio dos Pardos, encontrados em 1911 e 1918, somam atualmente 46 pessoas. A área da TI é de 770 hectares, é demarcada mas não foi homologada, e ainda é ocupada por colonos, que só partem com indenização. O local foi bastante desmatado, pois era explorado por muitas madeireiras. Os xoklengs da região moram nas cidades de Calmon, Matos Costa e na TI Ibirama, trabalhando como diaristas de lavouras dos colonos locais, ou empregadas domésticas.
Algumas famílias acampam dentro de uma pequena parte da TI durante o plantio e colheita de suas lavouras, porém moram nas cidades. “Espera-se que, com a homologação da TI Rio dos Pardos e a saída dos colonos da mesma, os xoklengs possam retornar a uma organização socioeconômica e política mais unitária. Somente os xoklengs da facção Laklanõ sobreviveram até os dias de hoje enquanto uma sociedade diferenciada”. Isto ocorre devido à união matrimonial entre alguns Kaingang e Xokleng, e “ao próprio tipo de colonização do médio e alto vale do rio Itajaí. Lá o predomínio da pequena propriedade, operada por famílias nucleares de origem alemã, italiana e, mais ao norte, polonesa, gerou um tipo de apartheid que "preservou" os Laklanõ como um grupo bem diferenciado, vivendo pacificamente, desde que dentro dos limites da TI” (WIIK, 2015).

Fonte da imagem: http://3.bp.blogspot.com/-8AI13dk48Bk/Tl-002WOXvI/AAAAAAAAAHE/JmYye7yr17Y/s1600/xokleng_6.jpg

Referências

MAIOR, Flávia Souto. Xokleng, uma civilização perdida em Santa Catarina. 2004. Disponível em: <http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/xokleng-civilizacao-perdida-santa-catarina-433786.shtml>. Acesso em: 12 nov. 2015.

BATTISTELLI, Ceres. A realidade dos povos indígenas. 2013. Disponível em: <http://www.bemparana.com.br/noticia/293559/a-realidade-dos-povos-indigenas>. Acesso em: 12 nov. 2015.

ITAQUATIARA. Disponível em: <http://itaquatiara.blogspot.com.br/2010/01/elaine-tavares-fala-sobre-o-povo.html>. Acesso em: 8 nov. 2015.

WIIK, Flavio Braune. Organização social e atual Disponível em:
<http://pib.socioambiental.org/pt/povo/xokleng/978>. Acesso em: 8 nov. 2015.

ETNIAS de Jaraguá do Sul - Xokleng. Disponível em: <http://www.jaraguadosul.sc.gov.br/etnias-de-jaragua-do-sul-xokleng>. Acesso em: 8 nov. 2015.

RICARDO, Fany Pantaleoni. Xokleng. Disponível em: http://pib.socioambiental.org/pt/povo/xokleng/978 Acesso em: 08 nov. 2015

Fundação Nacional do Índio (Org.). Xokleng. Disponível em: <http://www.funai.gov.br/index.php/component/finder/search?q=xokleng>. Acesso em: 18 nov. 2015.

WIIK, Flavio Braune. Histórico do contato. Disponível em: <http://pib.socioambiental.org/pt/povo/xokleng/976>. Acesso em: 18 nov. 2015.

Autoria do verbete

Amanda Zagonel
Gabriela Leite Goulart
Rafaela Zilio Altenburger
Wolfgang Blödor Muhlbrandt

Estudantes da turma EMITST 2015

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